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sábado, 11 de outubro de 2008

Os 100 anos de Cartola

Um dos maiores sambistas da história do país, Angenor de Oliveira, o Cartola, completaria neste sábado (11) cem anos de vida. O blog "Curtas Poéticas" homenageia este, acima de tudo, grande poeta brasileiro. VIVA CARTOLA!


Começando com "Pranto de Poeta"



Em Mangueira
Quando morre
Um poeta
Todos choram

Vivo tranqüilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

Mas o pranto em Mangueira
É tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra agente

Hei de ter um alguém pra chorar por mim
Através de um pandeiro ou de um tamborim.

As Rosas Não Falam

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim.



(Cartola)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Não faz mal amor

Não faz mal amor,
Deixa-me dormir
Ó minha flor tenha dó de mim
Sonhei, acordei assustado,
Receioso que tivesse me enganado
Eu não vivo sossegado

Só tens ambição e vaidade
Não pensas em felicidade
E eu não descanso um momento
Por pensar que teu amor
É só fingimento
Mas eu vou entrar com meu jogo
Eu vou pôr à prova de fogo
A tua sincera amizade
Para ver se tu falaste a verdade

Amar sem penar é bem raro
O verbo cumprir custa caro
Amor é bem fácil achar
O que acho mais difícil
É saber amar

O mundo tem suas surpresas
Mas nós temos nossas defesas
Por isso eu estou prevenido
Pra saber se sou ou não traído.



(Cartola)

Soldado do Amor

Passei a noite inteira esperando
Ao tédio perguntando
Onde anda minha companheira
Nesta vigília triste, selei minha sorte
Se ela não voltar
Hei de preferir a morte
Não foi preciso o relógio despertar
Pois esta noite não dormi
Não fui me deitar
Como soldado do amor
Fiz sentinela
A aurora me pilhou
Esperando por ela.


(Cartola)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Não posso viver sem ela

Tive que contar a minha vida
A esta mulher fingida
Que me faz sofrer
Esta dor que tanto me crucía
Roubou toda a alegria
Do meu viver

Pode ser que ela ouvindo os meus ais
Volte ao lar pra viver em paz

Esta malvada bem sabe o mal que me fez
Mas não faz mal eu lhe perdôo outra vez
Meu coração vive reclamando noite e dia
Por isso eu peço que ela volte para a minha companhia.



(Cartola / Bide)

O Inverno do Meu Tempo

Surge a alvorada
folhas a voar
e o inverno do meu tempo começa
a brotar, a minar

E os sonhos do passado
no passado estão presentes,
e o amor que não envelhece jamais
eu tenho paz
e ela tem paz

Nossas vidas
muito sofridas
caminhos tortuosos
entre flores e espinhos demais

Já não sinto saudade
saudades de nada que vi
o inverno do tempo da vida
oh! Deus
eu me sinto feliz

Surge a alvorada
folhas a voar...


(Cartola / Roberto Nascimento)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Como é que eu posso

Como é que eu posso,
Cozinhar sem banha,
Sem cebola e alho,
Sem vinagre e cheiro,
Como é que eu posso,
Ter bom paladar,
Sem você deixar,
A grana pros temperos.

Pois fique sabendo,
Que o feijão bichado,
E o arroz quebrado,
Que alguém lhe vendeu,
Já despejei tudinho no terreiro,
Veja bem o dinheiro,
Que você perdeu.

Ou você acaba com essa economia,
Ou então acaba-se nossa amizade,
Já reclamo isso quase todo dia,
Você me responde com simplicidade.

É que a cebola minha filha, está soberba,
O alho e o vinagre cada vez subindo mais,
Peça emprestado cada dia a uma vizinha,
Ou continua fazendo, sempre como você faz.


(Cartola)

Ao amanhecer

Ao amanhecer , ao anoitecer
Cantam em bando aves fazendo verão
Ouve-se os acordes de um violão
E são eles , verdes periquitos

Têm o peito forte tal qual o granito
E são lindas as suas cancões.
Quando a tarde vai morrendo,

Ai, meu Deus
O crepúsculo vem descendo

Reúne-se o bando na rua
E cheios de harmonia
Entoam uma melodia
Que faz dancar, a própria lua.



(Cartola)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Não quero mais

Não quero mais
Amar a ninguém
Não fui feliz
O destino não quis
O meu primeiro amor
Morreu como a flor
Ainda em botão
Deixando espinhos
Que dilaceram meu coração
Semente de amor
Sei que sou desde nascença
Mas sem ter vida e fulgor
Eis minha sentença
Tentei pela primeira vez um sonho vibrar
Foi beijo que nasceu
E morreu sem se chegar a dar
Às vezes dou gargalhada
Ao lembrar do passado
Nunca pensei em amor, nunca amei nem fui amado
Se julgas que estou mentindo jurar sou capaz
Foi simples sonho que passou e nada mais.



(Cartola / Carlos Cachaça / Zé da Zilda)

Desfigurado

Dizem que estou desfigurado, com razão
Estou cansado de pedir a Deus,
Aos céus enfim
Um amor, onde encontrarei, Senhor!
Livrai-me desta nostalgia
Confiante ainda espero o dia

Meu coração é pobre e magoado
É infeliz como um menor abandonado
Viveu sempre nesta ilusão
Procurando outro coração


(Cartola)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Nós Dois

Está chegando o momento
De irmos pro altar
Nós dois
Mas antes da cerimônia
Devemos pensar em depois
Terminam nossas aventuras

Chega de tanta procura
Nenhum de nós deve ter
Mais alguma ilusão
Devemos trocar idéias
E mudarmos de idéias
Nós dois
E se assim procedermos
Seremos felizes depois
Nada mais nos interessa
Sejamos indiferentes
Só nós dois, apenas dois,
Eternamente.



(Cartola)

Fiz por você o que pude

Todo o tempo que eu viver
Só me fascina você,
Mangueira
Guerreei na juventude
Fiz por você o que pude,
Mangueira
Continuam nossas lutas,
Podam-se os galhos, colhem-se as frutas
E, outra vez se semeia
Eno fim desse labor
Surge outro compositor
Com o mesmo sangue na veia.


(Cartola)

domingo, 5 de outubro de 2008

Divina Dama

Tudo acabado
E o baile encerrado
Atordoado fiquei
Eu dancei com você
Divina dama
Com o coração
Queimando em chama


Fiquei louco
Pasmado por completo
Quando me vi tão perto
De quem tenho amizade
Na febre da dança
Senti tamanha emoção
Devorar-me o coração
Divina dama


Quando eu vi
Que a festa estava encerrada
E não restava mais nada
De felicidade
Vinguei-me nas cordas
Da lira de um trovador
Condenando o teu amor
Tudo acabado



(Cartola)

Fita os Meus Olhos

Fita os meus olhos
Vê como eles falam
Vê como reparam o seu proceder
Não é preciso dizer deve compreender
Até mesmo notar só no meu olhar
Não abuses por eu te confessar
Que nascestes só para eu te amar
Gosto tanto tanto de você
Que os meus olhos falam o que não vê
Ainda há de chegar o dia
Que eu hei de ter tanta alegria
Quando você souber compreender
Num olhar o que eu quero dizer



(Cartola / Oswaldo Vasques)

sábado, 4 de outubro de 2008

Beijos

Beijos,
Ainda quero mais beijos teus

Beijos,
Para satisfazer os meus

Beijos,
Nem que sejam de falsidade

Beijos,
Melhor que se fossem de verdade.



(Cartola)

Sim

Sim,
Deve haver o perdão
Para mim
Senão nem sei qual será
O meu fim

Para ter uma companheira
Até promessas fiz
Consegui um grande amor
Mas eu não fui feliz
E com raiva para os céus
Os braços levantei
Blasfemei
Hoje todos são contra mim

Todos erram neste mundo
Não há exceção
Quando voltam a realidade
Conseguem perdão
Porque é que eu Senhor
Que errei pela vez primeira
Passo tantos dissabores
E luto contra a humanidade inteira.




(Cartola / Oswaldo Martins)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Canção de Saudade

Tudo de alegrias e de tristezas conheci,
Coisas do amor e do sofrer, eu já senti,
Nada me transforma a alegria de viver,
Ver a noite vir e sorrir, ao sol nascer,
Vivo esperando o novo dia,
Que irá trazer a luz, que sempre ficará.



(Cartola)

Autonomia

É impossível nesta primavera, eu sei
Impossível, pois longe estarei
Mas pensando em nosso amor, amor sincero
Ai! se eu tivesse autonomia
Se eu pudesse gritaria
Não vou, não quero
Escravizaram assim um pobre coração
É necessário a nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero.



(Cartola)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Minha

Minha
Quem disse que ela foi minha
Se fosse seria a rainha
Que sempre vinha
Aos sonhos meus

Minha
Ela não foi um só instante
como mentiam as cartomantes
como eram falsas as bolas de cristal

Minha
Repete agora esta cigana
Lembrando fatos envelhecidos
que já não ferem mais os meus ouvidos.



(Cartola)

Peito Vazio

Nada consigo fazer
Quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta
Um vazio se faz em meu peito
E de fato eu sinto
Em meu peito um vazio
Me faltando as tuas carícias
As noites são longas
E eu sinto mais frio.
Procuro afogar no álcool
A tua lembrança
Mas noto que é ridícula
A minha vingança
Vou seguir os conselhos
De amigos
E garanto que não beberei
Nunca mais
E com o tempo
Essa imensa saudade que sinto
Se esvai.


(Cartola / Elton Medeiros)